Risco, uma breve história

O que distingue os milhares de anos de história do que consideramos os tempos modernos? A resposta transcende em muito o progresso da ciência, da tecnologia, do capitalismo e da democracia.

O passado remoto foi repleto de cientistas brilhantes, de matemáticos, de inventores, de tecnólogos e de filósofos políticos. Centenas de anos antes do nascimento de Cristo, os céus haviam sido mapeados, a grande biblioteca de Alexandria fora construída e a geometria de Euclides era ensinada. A demanda por inovações tecnológicas para fins bélicos era tão insaciável quanto atualmente. Carvão, óleo, ferro e cobre estiveram a serviço dos seres humanos por milénios, e as viagens e comunicações marcaram os primórdios da civilização conhecida.

A ideia revolucionária que define a fronteira entre os tempos modernos e o passado é o domínio do risco: a noção de que o futuro é mais do que um capricho dos deuses e de que homens e mulheres não são passivos ante a natureza. Até os seres humanos descobrirem como transpor essa fronteira, o futuro era um espelho do passado ou o domínio obscuro de oráculos e adivinhos que detinham o monopólio sobre o conhecimento dos eventos previstos.

Foi um grupo de pensadores cuja visão notável revelou como pôr o futuro a serviço do presente. Ao mostrar ao mundo como compreender o risco, medi-lo e avaliar suas consequências, eles converteram o ato de correr riscos em um dos principais catalisadores que impelem a sociedade ocidental moderna. À semelhança de Prometeu, eles desafiaram os deuses e sondaram as trevas em busca da luz que converteu o futuro, de um inimigo, em uma oportunidade. A transformação nas atitudes em relação à administração do risco desencadeada por suas realizações canalizou a paixão humana pelos jogos e apostas para o crescimento económico, a melhoria da qualidade de vida e o progresso tecnológico.

Ao definir um processo racional de enfrentar riscos, esses inovadores forneceram o ingrediente faltante que impeliu a ciência e as empresas ao mundo da velocidade, do poder, das comunicações instantâneas e das finanças complexas, típicos de nossa própria época. Suas descobertas sobre a natureza do risco e sobre a arte e a ciência da opção são centrais à nossa moderna economia de mercado à qual as nações em todo o mundo se apressam em aderir. Dados todos os seus problemas e armadilhas, a livre economia, tendo a livre opção em seu núcleo, trouxe à humanidade um acesso sem precedentes às coisas boas da vida.

A capacidade de definir o que poderá acontecer no futuro e de optar entre várias alternativas é central às sociedades contemporâneas. A administração do risco nos guia por uma ampla gama de tomada de decisões, da alocação da riqueza à salvaguarda da saúde pública, da condução da guerra ao planejamento familiar, do pagamento de prémios de seguros ao uso do d cinto de segurança, da plantação de milho à venda de flocos de milho.

Nos velhos tempos, os instrumentos da agricultura, da indústria, da gestão empresarial e das comunicações eram simples. As panes eram frequentes, mas os reparos não exigiam a chamada de um encanador, eletricista ou cientista da computação – ou de contadores e analistas de investimentos. A falha em uma área raramente exercia impacto direto sobre outra. Os instrumentos que ora usamos são complexos e as panes podem ser catastróficas, com consequências de longo alcance. Temos de estar sempre alertas para possíveis falhas ou erros. Sem um domínio da teoria das probabilidades e de outros instrumentos de administração do risco, os engenheiros jamais teriam projetado as grandes pontes que transpõem nossos rios mais largos, os lares ainda seriam aquecidos por lareiras ou fogareiros, as usinas elétricas não existiriam, a poliomielite não teria sido erradicada, não haveria aviões e as viagens espaciais seriam apenas um sonho. Sem o seguro em suas muitas variedades, a morte do pai de família reduziria os filhos jovens à penúria ou caridade, a assistência médica seria negada a um número ainda maior de pessoas e somente os mais ricos conseguiriam adquirir a casa própria. Se os agricultores não pudessem vender suas safras a um preço estabelecido antes da colheita, produziriam muito menos alimentos.

Se não tivéssemos mercados de capitais disponíveis onde os poupadores diversificam seus riscos, se os investidores só pudessem possuir uma ação (como ocorria nos primórdios do capitalismo), as grandes empresas inovadoras que definem nossa época – como a Microsoft, a Merck, a DuPont, a Alcoa, a Boeing e a McDonald’s – talvez jamais viessem a existir. A capacidade de administrar o risco, e com ele a vontade de correr riscos e de fazer opções ousadas, são elementos-chave da energia que impulsiona o sistema económico.

A concepção moderna de risco tem suas raízes no sistema de numeração indo-arábico que alcançou o Ocidente há cerca de setecentos a oitocentos anos. Mas o estudo sério do risco começou no Renascimento, quando as pessoas se libertaram das restrições do passado e desafiaram abertamente as crenças consagradas. Foi uma época em que grande parte do mundo seria descoberto e seus recursos explorados. Uma época de turbulência religiosa, de capitalismo nascente e de uma abordagem vigorosa da ciência e do futuro.

Em 1654, época em que o Renascimento estava em pleno alvorecer, o cavaleiro de Méré, um nobre francês com gosto pelo jogo e pela matemática, desafiou o famoso matemático francês Blaise Pascal a decifrar um enigma. A pergunta era como dividir as apostas de um jogo de azar entre dois jogadores, que foi interrompido quando um deles estava vencendo. O enigma confundira os matemáticos desde sua formulação, duzentos anos antes, pelo monge Luca Paccioli. Este foi o homem que trouxe a contabilidade das partidas dobradas à atenção dos homens de negócios da época – e ensinou as tabuadas de multiplicação a Leonardo da Vinci. Pascal pediu ajuda a Pierre de Fermat, advogado que também era brilhante matemático. O resultado de sua colaboração foi pura dinamite intelectual. O que poderia parecer uma versão do século XVII do jogo da Busca Trivial levou à descoberta da teoria das probabilidades, o núcleo matemático do conceito de risco.

Sua solução do enigma de Paccioli permitiu que, pela primeira vez, as pessoas tomassem decisões e previssem o futuro com ajuda dos números. Nos mundos medieval e antigo, e mesmo nas sociedades pré-escrita e camponesas, os indivíduos conseguiam tomar decisões, defender seus interesses e praticar o comércio, mas sem uma compreensão real do risco ou da natureza, da tomada de decisões. Atualmente, dependemos da superstição e da tradição menos do que as pessoas no passado, não por sermos mais racionais, mas porque nossa compreensão do risco permite-nos tomar decisões de modo racional.

Na época em que Pascal e Fermat irromperam no mundo fascinante da probabilidade, a sociedade experimentava uma onda extraordinária de inovação e explorações. Em 1654, era um fato estabelecido que a Terra era redonda, terras novas e vastas haviam sido descobertas, a pólvora reduzia os castelos medievais a pó, a imprensa de tipos móveis deixara de ser novidade, os artistas estavam versados no uso da perspectiva, a riqueza bafejava a Europa e a bolsa de valores de Amsterdã florescia. Alguns anos antes, na década de 1630, a famosa “bolha” das tulipas holandesas estourara como resultado da emissão de opções, cujas características essenciais eram idênticas aos instrumentos financeiros sofisticados atualmente em uso.

Essas evoluções tiveram consequências profundas que puseram o misticismo em retirada. Nessa época, Martinho Lutero se manifestara c as auréolas haviam desaparecido da maioria das pinturas da Santíssima Trindade e dos santos. William Harvey derrubara os ensinamentos médicos dos antigos com sua descoberta da circulação sanguínea – e Rembrandt pintara “A Lição de Anatomia” com seu corpo humano frio, pálido e nu. Em tal ambiente, alguém teria brevemente desenvolvido a teoria das probabilidades, ainda que o cavaleiro de Méré jamais desafiasse Pascal com seu enigma.

Com a passagem dos anos, os matemáticos transformaram a teoria das probabilidades de um brinquedo de apostadores em um instrumento poderoso de organização, interpretação e aplicação das informações. À medida que uma ideia engenhosa se empilhava sobre a outra, surgiram técnicas quantitativas de administração do risco que ajudaram a desencadear o ritmo dos tempos modernos.

Em 1725, os matemáticos competiam entre si na invenção de tabelas de expectativas de vida e o governo inglês se autofinanciava com a venda de anuidades vitalícias. Em meados do século, os seguros marítimos haviam emergido como um florescente e sofisticado negócio em Londres.

Em 1703, Gottfried von Leibniz comentou com o cientista e matemático suíço Jacob Bernoulli que “a natureza estabeleceu padrões que dão origem ao retorno dos eventos, mas apenas na maior parte dos casos”, levando assim Bernoulli a inventar a Lei dos Grandes Números e os métodos de amostragem estatística, que impelem atividades modernas tão variadas como a pesquisa de opinião, a degustação de vinhos, a escolha de ações e o teste de novos remédios. A advertência de Leibniz -“mas apenas na maior parte dos casos” – foi mais profunda do que ele possa ter percebido, pois forneceu a chave para a questão da existência do risco em primeiro lugar: sem esta ressalva, tudo seria previsível, e em um mundo onde cada evento é idêntico a um evento anterior nenhuma mudança jamais ocorreria.

Em 1730, Abraham de Moivre expôs a estrutura da distribuição normal – também conhecida como curva em sino – e descobriu o conceito de desvio padrão. Conjuntamente, esses dois conceitos constituíram o que popularmente se conhece como a Lei das Médias e são ingredientes essenciais das técnicas modernas de quantificação do risco. Oito anos depois, Daniel Bernoulli, o sobrinho de Jacob e um matemático e cientista igualmente eminente, definiu pela primeira vez o processo sistemático pelo qual a maioria das pessoas realiza escolhas e chega a decisões. Ainda mais importante, ele propôs a ideia de que a satisfação resultante de qualquer pequeno aumento de riqueza “será inversamente proporcional à quantidade de bens anteriormente possuídos”. Com essa afirmação de aspecto inocente, Bernoulli explicou por que o rei Midas era um homem infeliz, por que as pessoas tendem a ser avessas ao risco e por que os preços têm de cair para que os clientes sejam persuadidos a comprar mais. Nos próximos 250 anos, a afirmação de Bernoulli se manteria como o paradigma dominante do comportamento racional e estabeleceria o fundamento dos princípios modernos de gestão de investimentos.

Quase exatos cem anos após a colaboração entre Pascal e Fermat, um pastor inglês dissidente chamado Thomas Bayes deu um impressionante avanço em estatística ao demonstrar como tomar melhores decisões mesclando matematicamente as novas informações com as informações velhas. O teorema de Bayes enfoca as ocasiões frequentes em que temos julgamentos intuitivos seguros sobre a probabilidade de algum evento e queremos entender como alterá-los com o desenrolar dos eventos reais.

Todas as ferramentas atualmente usadas na administração do risco e na análise das decisões e opções, da rigorosa racionalidade da teoria dos jogos aos desafios da teoria do caos, resultam das evoluções ocorridas entre 1654 e 1760, com apenas duas exceções:

Em 1875, Francis Galton, um matemático amador que era primo em primeiro grau de Charles Darwin, descobriu a regressão à média, que explica por que o orgulho precede uma queda, e por que as nuvens tendem a ter superfícies prateadas. Sempre que tomamos uma decisão baseados na expectativa de que as coisas voltarão ao “normal”, estamos empregando a noção de regressão à média.

Em 1952, o ganhador do prémio Nobel Harry Markowitz, então um jovem estudante de doutorado em pesquisa operacional na Universidade de Chicago, demonstrou matematicamente por que colocar todos os ovos na mesma cesta é uma estratégia inaceitavelmente arriscada, e por que a diversificação é o melhor negócio para um investidor ou gerente de empresa. Essa revelação desencadeou o movimento intelectual que revolucionou Wall Street, as finanças corporativas e as decisões empresariais em todo o mundo; seus efeitos até hoje se fazem sentir.

 

A história caracteriza-se o tempo todo por uma tensão persistente entre os que afirmam que as melhores decisões se baseiam na quantificação e nos números, sendo determinadas pelos padrões do passado, e os que baseiam suas decisões em graus de crença mais subjetivos sobre o futuro incerto. Essa é uma controvérsia jamais solucionada.

A questão reduz-se à visão da extensão em que o passado determina o futuro. Não podemos quantificar o futuro, por ser desconhecido, mas aprendemos a empregar os números para esquadrinhar o que aconteceu no passado. Mas até que ponto devemos confiar nos padrões do passado para prever o futuro? O que é mais importante quando enfrentamos um risco: os fatos como os vemos ou nossa crença subjetiva no que se oculta no vazio do tempo? A administração do risco é uma ciência ou uma arte? Conseguiremos determinar exatamente a linha divisória entre as duas abordagens?

Uma coisa é estabelecer um modelo matemático que parece explicar tudo. Mas quando enfrentamos a luta do dia-a-dia, das constantes tentativas e erros, a ambiguidade dos fatos, assim como o poder das emoções humanas, pode destruir rapidamente o modelo. O falecido Fischer Black, um teórico pioneiro das finanças modernas que se mudou do MIT para Wall Street, comentou: “Os mercados parecem bem menos eficientes das margens do Hudson do que das margens do Charles.”

Com o correr do tempo, a controvérsia entre a quantificação baseada nas observações- do passado e os graus subjetivos de crença ganhou uma importância maior. O aparato baseado na matemática da moderna administração do risco contém as sementes de uma tecnologia desumanizado-ra e autodestrutiva. O ganhador do prémio Nobel Kenneth Arrow advertiu: “Nosso conhecimento do funcionamento das coisas, na sociedade ou na natureza, vem a reboque de nuvens de imprecisão. Grandes males têm se seguido a uma crença na certeza.”3 No processo de libertação do passado, podemos ter nos tornado escravos de uma nova religião, um credo tão implacável, restritivo e arbitrário como o anterior.

Nossas vidas estão repletas de números, mas às vezes esquecemos que estes não passam de ferramentas. Eles não têm alma; podem até virar fetiches. Muitas de nossas decisões mais cruciais são tomadas por computadores, engenhocas que devoram números como monstros vorazes e que insistem em ser alimentados com quantidades crescentes de dígitos para mastigar, digerir e cuspir de volta.

Para julgar até que ponto os atuais métodos de enfrentar riscos são benéficos ou ameaçadores, precisamos conhecer toda a história, desde seus primórdios. Precisamos saber por que os homens do passado tentaram – ou não – dominar o risco, como desempenharam esta tarefa, que modalidades de pensamento e de linguagem surgiram de sua experiência e como suas atividades interagiram com outros eventos, grandes e pequenos, para alterar o curso da cultura. Tal perspectiva nos trará uma compreensão maior de onde nos situamos e para onde podemos estar rumando.

No percurso, faremos muitas referências aos jogos de azar, cujas aplicações se estendem bem além do rodar da roleta. Muitas das ideias mais sofisticadas sobre a administração do risco e a tomada de decisões desenvolveram-se a partir da análise dos jogos mais pueris. Não é preciso ser um apostador ou mesmo um investidor para reconhecer o que o jogo e o investimento revelam sobre o risco.

Os dados e a roleta, junto com o mercado de ações e o mercado de títulos, são laboratórios naturais para o estudo do risco, por se prestarem tão prontamente à quantificação; sua linguagem é a dos números. Eles também revelam muito sobre nós mesmos. Quando contemos a respiração ao ver a bolinha branca girar pela roleta em movimento ou quando telefonamos ao nosso corretor a fim de comprar ou vender ações, nosso coração bate ao compasso dos números. O mesmo se dá com todos os resultados importantes que dependem do acaso.

A palavra “risco”deriva do italiano risicare, que significa “ousar”. Nesse sentido, o risco é uma opção e não um destino. É das ações que ousamos tomar que dependem nosso grau de liberdade de opção, que a história do risco trata. E essa história ajuda a definir o que é um ser humano.

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